terça-feira, 31 de janeiro de 2012

31 DE JANEIRO... Dia do Sargento?


A evocação da efeméride do 31 de Janeiro de 1891, na cidade do Porto, que ficou conhecida como “A Revolta dos Sargentos”,  tem sido feita, desde há quase três décadas, um motivo óbvio e natural, para se enaltecer a coragem, a determinação e a consciência dos militares, sobretudo sargentos, que naquela data souberam e quiseram interpretar os anseios de uma afirmação de dignidade profissional, social e de carácter patriótico, perante uma declarada crise  de identidade nacional, no momento em que se sentia o estrebuchar da Monarquia, como reflexo do famigerado Ultimato inglês, que pretendia humilhar a identidade nacional duma sociedade que estava já cansada pelo não reconhecimento de carências de orden vária.
Estava igualmente associada a estes factos uma mais que evidente  deterioração das condições de vida dos próprios militares, para além da sua subalternização na sociedade, perante uma Monarquia que estaria (?) já em decadência e se via confrontada com os crescentes 'apelos' à implantação da Republica, que já se 'fazia' anunciar e aos quais 'apelos'  os militares não deixavam de 'reconhecer' alguma   urgência... e pertinência.
A Associação Nacional de Sargentos chamou a si a iniciativa de  manter indelével a memória desses homens 'heróicos', que sofreram na pele toda a angústia que lhes era provocada pelo seu inconformismo e indignação. Essa iniciativa começou a tomar forma logo após a Revolução do 25 de Abril e não mais foi largada, e bem, pois teve o propósito de dela se fazer estandarte da  determinação dos sargentos portugueses em conseguirem o reconhecimento dos seus direitos de cidadania e  a ser-lhes igualmente consignado o direito  ao espaço que lhes é devido na sociedade portuguesa.
A caracterização deste dia 31 de Janeiro com a ideia de "Dia Nacional do Sargento" foi ganhando força e, mesmo que nunca, até ao momento presente, tenha sido oficialmente reconhecido como tal, apesar de ter havido uma falhada tentativa legislativa por parte  do Grupo Parlamentar do PCP, apresentada há uns anos, foi 'derrotada' apesar do mérito da mesma, porque era  excessivo o empenhamento partidário no Parlamento, como ainda hoje vai acontecendo. 
O  certo é que , a determinada altura,  o "Dia Nacional do Sargento" se tornou num evento sem retrocesso 'possivel', pois a sua génese e objectivos a conseguir consistiam no reconhecimento duma classe militar  que reclamava mais atenção e dignidade, sendo esta igualmente extensiva  à sua condição militar.
Infelizmente, por muito que nos doa dizer, a cegueira de uns quantos que se  arvoraram em proprietários de um ideal que era de algum modo repartido de maneira igual  por todos os Sargentos, independentemente das suas sensibilidades politico-partidárias, levou a que esta efeméride caísse numa mera e ineficaz, para não dizer condenável, arma de arremesso, de uma 'certa' oposição conflituante e radical, contra o poder, com total incapacidade de reconhecer que qualquer diálogo a este nível só é possível quando exista, de ambos os lados, respeito e elevado sentido de reconhecimento do  superior interesse que é essencial de quem é representado e não dos pressupostos partidários de qualquer força política, dessas que se movimentam na sombra da lealdade intrínseca dos militares,  tentando assim atingir objectivos de confrontação política e partidária, numa área tão sensível como deve ser considerada a actual concepção de apartidarismo que é apanágio das Forças Armadas.
Hoje é o dia em que se deveria comemorar  mais um "Dia Nacional do Sargento". No entanto, sabe-se que a hierarquia tem feito o seu trabalho de 'casa' e vai minando, de forma cada vez mais descarada, a determinação até agora demonstrada pelos Sargentos das Forças Armadas, de tal modo que estes já vêem como suicida esta caminhada  para o descrédito total de um projecto que era de todos, tudo fazendo as cúpulas hierárquicas para  nos deixar perante uma ANS que pretendem desmembrada, sectária e perdida, absolutamente divorciada dos reais interesses dos militares. 
Talvez no próximo ano tenhamos de comemorar ainda com mais angústia e tristeza, porque as alterações legislativas que se têm produzido quanto aos direitos dos Militares - que não apenas dos Sargentos -, estão a destruír, de forma lenta mas segura,  o sonho da maioria dos Sargentos de Portugal, fazendo ruir o sonho de uma  conquista de todos os militares que acreditaram ser possível um amanhã melhor.
Vamos comemorar este 31 de Janeiro, na amargura duma decadência que levará anos e sacrifícios a contrariar, mas na certeza de que os ideais persistem, mesmo no silêncio do luto que sentimos dentro de nós.
O 31 de Janeiro, contra tudo e contra todos, será sempre o Dia Nacional do Sargento!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

EXAME DE CONSCIÊNCIA ÀS TROPAS - continuação


EXAME DE CONSCIÊNCIA ÀS TROPAS
"Por outro lado as responsabilidades dos militares não se limitam à Instituição de cujos antepassados são agora os sucessores (e não há instituição mais antiga no país!). Os militares têm responsabilidade em tudo o que se passa em Portugal, como cidadãos de corpo inteiro, e especiais responsabilidades naquilo que possa pôr em perigo a Segurança da Nação e a sua Independência (jurámos todos defender isto com risco de vida e tal não prescreve na reserva, reforma, nem nos cidadãos que cumpriram o SMO).
Ora também neste âmbito, raramente topei com alguém que fosse além da conversa de escárnio e maldizer à volta de uma boa bacalhoada, âmbito em que continuamos imbatíveis.
Vou arriscar dar, também, alguns exemplos neste particular:
  - Recordam-se quando virámos costas ao mar (e ao passado) comprometendo o futuro, até ver, irremediavelmente?
  - Recordam-se do modo irresponsável como entrámos na Comunidade Económica Europeia?
  - Recordam-se como entrámos no Euro sem estarmos em condições de o fazer?
  - Recordam-se como assinámos os tratados de Maastricht, Nice e Lisboa, que põem em causa a nossa independência, sem se explicar nada à Nação nem se fazer referendo?
  - Recordam-se como se fez a última revisão constitucional (que passou despercebida), em que se instituiu o primado da legislação oriunda de Bruxelas sobre a nacional, ainda por cima sem que nada a tal nos obrigasse?
  - Recordam-se como deixámos a nossa cultura, economia e finanças ser invadidas pelos espanhóis, país com quem temos a única fronteira que nos resta e cujas ambições passadas, ainda vamos conhecendo?
  - Recordam-se de como temos vindo a alienar todo o nosso património, sobretudo aquele que é estrategicamente relevante? (depois de termos trocado as verbas dos fundos estruturais pela destruição do aparelho produtivo!);
  - Recordam-se de como há décadas se passou a enviar políticos aos pares (não se sabendo como nem quem os escolhe), a reuniões internacionais de que ninguém conhece a agenda, e que são guardadas por forças de segurança e militares, pagas pelos impostos dos cidadãos e que, depois, esses políticos aos pares têm vindo, sucessiva e maioritariamente, a ocupar os cargos de PM e PR?
Quando uns malandrotes madeirenses andam, irresponsavelmente, a agitar o fantasma da independência, isso tem-vos causado, ao menos, algum franzir de sobrolho?
Quando a irresponsabilidade política quer acabar com o feriado do 1º de Dezembro - verdadeiro símbolo da nossa individualidade como Nação - isso causa-vos algum transtorno?
 Querem mais exemplos?
Pois parece que muito poucos de vós se tem apercebido disto, a avaliar pela passividade evidenciada, ó tropas!
 Começaram agora a acordar pois... estão a ir-vos ao bolso. Mais ainda estão aturdidos com o soco e sem saber o que fazer. A pancada ainda só agora começou. É curto e está tarde (embora valha mais tarde do que nunca).
 Julgam que o atrás apontado não configura uma invasão e por isso estão "serenos"? Invasão militar, não será, mas as consequências são as mesmas ou piores. Vou expor de outro modo para melhor se perceber: a presença da Troika no Terreiro do Paço é idêntica à da Duquesa de Mântua no Palácio Real, protegida pela Guarda Alemã no Castelo de S. Jorge...
 Hoje estou disposto a bater-me por quê? Eis a súmula do exame de consciência. Ficar indignado ou reagir só quando vos vão ao bolso é curto e fica tarde. E só acontece por falta de reacção a montante.
Nós nem sequer temos que ter serenidade para aceitar o que não podemos mudar, nas palavras do ilustre desconhecido, pela simples razão de que tudo o que se tem passado podia ter sido evitado ou mudado. Faltou apenas a noção do que é geopoliticamente relevante, bom julgamento e alguma coragem."
João José Brandão Ferreira
  TCor/Pilav(Ref)
...
Para quem peretenda dissecar aquilo que a coragem de dizer do Tenente Coronel Brandão Ferreira demonstra em mais um dos seus escritos, melhor seria procurar ler tudo o que ele nos diz nas suas intervenções colocadas no seu blog O ADAMASTOR. É que, para quem o conheça, é fácil 'entender' as suas 'mensagens', que mais não são que chamar 'os bois pelo nome'!
Nós, os Militares, estamos cientes de que é necessário 'agitar' as águas para que alguém se possa aperceber que estamos fartos de ser os parentes pobres da sociedade portuguesa! Se a canalha que diz governar meter as mãos à consciência, saberá que está a 'pagar' com injustiças, roubos e destruição de muitas famílias que já haviam sofrido com as ausências dos seus entes queridos 'atirados' para o Ultramar nos tempos conturbados da guerra pelas independências.
O Ten.Cor. Brandão Ferreira torna-se incómodo para muitos... porque diz o que não há a coragem de dizer por parte de muitos de nós, talvez porque julgamos não merecer a pena lutar mais... e isso é que 'eles' pretendem: VENCER PELO CANSAÇO!
Será que vamos deixar?

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

EXAME DE CONSCIÊNCIA ÀS TROPAS



14/1/12
"Senhor, dai-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar; a coragem para mudar as coisas que posso mudar, e a sabedoria para conseguir distinguir umas das outras."

Oração da serenidade

Autor desconhecido

Este artigo destina-se a pôr a (grande) maioria das pessoas contra mim. Se a sua consciência o ditar.
Do anterior falámos do desmantelamento da Instituição Militar e da menorização dos militares, que tem sido levada a cabo por todas as forças políticas representadas no Parlamento (sobretudo pelas do arco do poder), nomeadamente desde que a Lei 29/82 - Lei da Defesa Nacional e das FAs - entrou em vigor e que culminou agora no "congelamento" das promoções e na espantosa trapalhada à volta do Dec-Lei 296/09 (integração dos militares na tabela remuneratória única).
Falámos ainda da falta de êxito da mais elevada hierarquia militar na defesa da IM, o que tem levado a um manifesto afastamento entre as partes com cada vez mais nefastas consequências na coesão do todo.
A indignação das tropas foi potenciada, porém, pela "suspensão" da sua carreira; dos cortes salariais e naquilo que se adivinha (e vai ser uma realidade), na "Saúde Militar". Ou seja em aspectos exclusivamente materiais e que afectam o ser individual no seu dia - a - dia.
Parece-me curto. Daí que seja necessário fazer um exame de consciência, passe a "impertinência".
De facto, ao longo destes últimos 35 anos quando ocorreram numerosos erros e indignidades relativamente à Defesa Nacional e ao País raramente se viu alguém indignado ou disposto a opor-se ao plano inclinado em que fomos postos (o país e a IM). Pelo contrário, alguns até colaboraram com entusiasmo. Vou dar alguns exemplos para vos avivar a memória:
- Lembram-se como não se quis "julgar" ninguém a fim de separar o trigo do joio, quem se portou mal, de quem se portou bem (nos termos da virtude e da honra), durante e após o 25 de Abril, até a situação estabilizar?
- Lembram-se da incrível proliferação de subsídios; da reintegração a esmo de quem tinha sido saneado; das promoções avulso e da reconstituição de carreiras (conhecidas na gíria pelo "garimpo"), que causaram mais injustiças do que resolveram e inquinaram a IM por duas gerações? (terá sido o "apaziguamento" possível?);
- Lembram-se quando acabaram com o Serviço Militar Obrigatório? (um erro trágico de gravíssimas consequências!);
- Lembram-se quando mudaram a legislação sobre a escolha dos chefes militares, que governamentalizaram, impedindo qualquer contributo válido da própria instituição?
- Lembram-se quando achincalharam publicamente várias figuras de generais e almirantes e quase ninguém protestou, ou se solidarizou?
- Lembram-se quando retiraram os chefes militares da tabela salarial das FAs e os equivaleram a cargos políticos? (separando a cabeça do resto do corpo...).
- Lembram-se quando acabaram com os Tribunais Militares e, na prática, destruíram a Justiça Militar? (a única que ainda funcionava...).
- Lembram-se quando invadiram o ensino militar pelo ensino civil, para além do que era razoável, pondo-nos de cócoras com quem connosco só tem a aprender?
- Lembram-se dos ataques continuados e recorrentes à condição militar e aos militares, constantes na comunicação social, sem haver qualquer reacção?
- Lembram-se da incrível invasão das mulheres nas FAs, sem nexo que o justificasse, para além da demagogia do politicamente correcto? (e da falta de voluntários para algumas especialidades...).
- Lembram-se dos sucessivos ataques ao RDM, que acabaram na sua remodelação, que transformou a Disciplina Militar, numa quase ficção?
- Lembram-se da regra, inacreditável, do duplo voluntariado para se arranjar pessoal a fim de se constituírem unidades para operar fora do território nacional, cuja principal razão residiu no pânico de alguém poder morrer no cumprimento do seu dever?!
- Lembram-se das sucessivas amputações na autoridade delegada nos chefes militares para poderem bem comandar os seus Ramos - e poderem ser responsáveis por isso - (o que depois se reflecte pela hierarquia abaixo), que os têm vindo a transformar em figuras decorativas, em detrimento de políticos de ocasião cuja ignorância é crassa e as intenções duvidosas?
- Lembram-se dos numerosos grupos de trabalho já nomeados a nível do MDN, enxameados (quando não presididos) por civis, com a finalidade de tratarem de assuntos estritamente militares?
Os exemplos podiam continuar restando acrescentar um ponto: muito do mal que foi efectuado podia ser relevado se tivesse sido feito com boa intenção. A ignorância não pode ser apresentada como desculpa e há incontornáveis indícios de dolo.
A memória dos homens é fraca mas, às vezes, é também muito conveniente.
- Artigo de  João José Brandão Ferreira - TCor/Pilav(Ref)
CONTINUA