quarta-feira, 13 de julho de 2011

O CORPO EXPEDICIONÁRIO EM TANCOS.

Tancos - 1916 - Campo do CEP
... " E tendo considerado provadas as circunstâncias agravantes, o promotor de justiça conclui: "Julgo, pois, procedente e provada a acusação e nos termos do artigo 1º do decreto de 30 de Novembro de 1916 condeno o réu á morte com exautoração". (Sentença de Morte contra o "traidor" português Soldado João Augusto Ferreira de Almeida, fuzilado em Setembro de 1917)
 Desde o início da criação das forças militares expedicionárias, inclui-se o processo de selecção e o de recrutamento, verificou-se terem sido cometidos erros, umas vezes por incapacidade, outras por pressão de criação das mesmas em curtos espaços de tempo. A própria instrução se mostrava  muito difícil, uma vez  verificado que 48% dos mobilizados eram analfabetos e apenas 0,6% tinham instrução secundária. 

Na preparação do Corpo Expedicionário Português (CEP) para França, em 1916, ocorrida em Tancos, pretendeu-se dar aos aliados uma ideia de que se tinha conseguido formar um exército moderno, o então chamado "Milagre de Tancos". No entanto,  verificou-se que em termos de formação psicológica a preparação foi não só insuficiente, como por vezes inexistente, verificando-se então inúmeros motins ocorridos antes do embarque para França. Tácticamente a formação era insuficiente para o teatro de operações , como se acabou por verificar quando foi necessário executar um novo período de formação militar, antes que fosse possível enviar o CEP para as linhas da frente de combate.
A instrução preliminar dos soldados do CEP foi dada primeiro de forma geográficamente dispersa: fez-se nos quartéis da 2ª Divisão (Viseu), da 5ª Divisão (Coimbra) e da 7ª Divisão (Tomar), e só depois se efectuou a concentração em Tancos, que ocorreu entre Abril e Junho de 1916. Foi então que Tancos se transformou numa improvisada "Cidade de Tendas" e de algumas construções de madeira. A localização para a concentração das tropas foi escolhida mais pelas condições naturais: plana, banhada por dois rios (Zêzere e Tejo), e logísticas porque estava perto do caminho-de-ferro, do que de pela necessidade de envolver todos os militares numa só unidade Divisional.
Ao nível da criação do "Espírito de Corpo" e do reforço da "Força Moral" podemos considerar que a transformação de cidadãos em soldados não foi conseguido. O próprio plano de instrução militar não estava desenhado de forma a criar a sociabilização, a camaradagem e a disciplina necessárias para num contexto de guerra. A existência de longos períodos de descanso, em contrate com as poucas horas diárias de instrução, não criaram as condições necessárias às exigências que se adivinhavam.
Dirão alguns: "E que vem o excerto da sentença fazer para este escrito, se estamos a falar de preparação, formação, adestramento para o combate e não se deserções, traições ou outras confusões tidas no teatro de guerra?".
Pois é verdade! Apenas pretendo dizer que também aqui o plano disciplinar, social, de camaradagem ou aquilo que queira chamar-lhe... falhou! Hoje seria impossível dar-se esta malfadada situação de fuzilamento, até porque muitos mais estariam sujeitos a tal pena... com muita pena o digo.