quinta-feira, 24 de setembro de 2009

OS PIONEIROS DE UMA AVIAÇÃO QUE NÃO CHEGOU A EXISTIR

É já no próximo mês que se "comemora" o 88º. aniversário daquela que foi a Base Aérea nº. 3, que alguém resolveu alienar a favor do Exército... cumprindo um desejo de muitos anos que esta Arma sempre manifestou de forma clara e inequívoca: Como a Base tinha sido instalada em infraestruturas que foram da Aeronáutica Militar, que pertenceu ao Exército até que, em 1952, foi entregue à Força Aérea Portuguesa, então criada.
Não importa que tenha a F.A.P. construído importantes infraestruturas naquela Unidade! Muito do que se construíu não aproveita aos Paraquedistas, porque era destinado a aviões e não pára-quedas. Gastaram ali o que tinham e não tinham, para depois se ter de passar tudo para as mãos de um pseudo GALE - Grupo de Aviação Ligeira do Exército, que foi "criado" mas não concretizado, como está claramente demonstrado. Leia-se o artigo que segue, que esclarece muita coisa... e nada.
"O Exército Português ainda não opera helicópteros em Portugal (nem em qualquer outra parte do mundo). Recentemente houve, e ainda está a haver, uma tentativa de adquirir helicópteros ligeiros e posteriormente helicópteros de transporte.
O processo não está a ser pacífico, mesmo nada. Avanços e recuos sucessivos associado a falta de decisão política condimentado pelo facto de Portugal passar um período de escassos recursos financeiros.
Diz o povo que a história se. repete. E de facto assim parece ser. Senão leiam com atenção um artigo elaborado pelo General Belchior Viera, publicado na Revista de Artilharia e que tomo a liberdade de transever na integra, se bem que por capítulos.
«É criada a Aviação Ligeira de Observação de Artilharia encarregada da utilização dos materiais ligeiros necessários para a Artilharia assegurar a observação e a conduta de tiro (..) sobre objectivos que não são vistos dos observatórios terrestres".
(De um projecto de Decreto/Lei do Ministério do Exército de 1950-51)
"0 grupo de Aviação Ligeira do Exército é a nova unidade que permitirá ao Exército actuar na terceira dimensão do campo de batalha".
(Do Livro Branco da Defesa Nacional 1994)
1. INTRODUÇÃO
Em 20 de Agosto de 1950, foi designado Ministro do Exército o general Adolfo do Amaral Abranches Pinto que, como brigadeiro, vinha exercendo as funções de Adido Militar e Aeronáutico junto da nossa Embaixada em Washington, desde Fevereiro do mesmo ano. O Exército dos Estados Unidos da América desenvolvia, então, uma série de experiências de doutrina táctica e organização operacional com base nos ensinamentos colhidos durante a II Guerra Mundial e nos novos tipos de armamento e equipamento com que passara a ser dotado. Entre este equipamento, contavam-se os aviões ligeiros, orgânicos de unidades do Exército e pilotados e mantidos por pessoal deste Ramo. Utilizados com frequência em missões de observação na II Guerra Mundial (70% das regulações do tiro de artilharia foram realizadas por observadores aéreos), os aviões ligeiros (os "piper Cub" L-4 e L-5) só depois do final desta guerra surgiram integrados num primeiro ordenamento orgânico . Mas, foi, sem dúvida, na guerra da Coreia que os aviões ligeiros alcançaram a sua "maioridade operacional", com a utilização diversificada e intensa do avião "Cessna" L-19, conhecido como "Bird Dog". Os helicópteros do Exército, surgidos no TO coreano, só viriam a alcançar notoriedade, mais tarde, no Vietname.
Na Coreia, os L-19 foram utilizados em missões de observação (regulação e verificação do tiro de artilharia e morteiros, aquisição de objectivos, reconhecimento de itinerários e posições, segurança de colunas de viaturas, pesquisa de actividade do inimigo, fotografia aérea, vigilância) e de transporte (ligação, serviço postal, lançamento e recolha de mensagens, evacuação de feridos, lançamento de fio telefónico, "relais" rádio, reabastecimento de emergência).
Artilheiro e entusiasta da aviação, tinha obtido o "brevet" internacional de pilotagem civil na Alemanha (1923) e especializara-se em observação aérea em balão e avião no Exército Francês (1934-35), o general Abranches Pinto trouxe consigo para Portugal a "ideia" de uma aviação ligeira do Exército, decidido a concretizá-la entre nós numa "escala" compatível com o nosso potencial militar. Não o conseguiu, apesar de nela ter empenhado todos os seus esforços.
Quase meio século passado, aquela "ideia" renasceu entre nós. Vingará agora?
Uma reflexão "histórica" poderá ser muito útil para os políticos e militares responsáveis pelo programa em curso."
(CONTINUA)

sábado, 12 de setembro de 2009

B.A.3 - Uma Base com história

Muitas vezes me têm perguntado porque razão refiro sempre ter saudades da Base Aérea 3, uma vez que tenho uma Base "mesmo ao pé da porta", como é o caso da Base Aérea 5, de Monte Real, dado ser natural de Leiria. Costumo responder que "não há amor como o primeiro"... e porque foi em Tancos que recebi o meu quinhão de saudade, ao ser incorporado na Força Aérea, é esse facto determinante no que se refere a ser-me suscitado tal sentimento.
Posso dizer que assisti à inauguração da BA5, mas foi no GDACI que tive o primeiro contacto oficial com a FAP, uma vez que fui lá inspeccionado para o Serviço Militar, enquanto na Base de Tancos fui incorporado, fiz toda a instrucção Militar e jurei Bandeira. Também foi na Base Aérea 3 que fiz o meu curso.
Fui colocado na BA5 após regressar de Angola, mas os dois anos ali passados não me fizeram esquecer Tancos, mesmo que tenha sido também um tempo importante o que vivi... numa Base que era a antítese daquilo que se preconizava encontrar numa Unidade Militar cinco estrelas, algo tornado necessário para quem estava no meio castrense, como seja: CAMARADAGEM entre todas as classes, sem os indesejáveis separatismos entre especialidades que eram apanágio da Base de Monte Real, onde se vivia segundo as "castas", ao passo que em Tancos havia uma noção arreigada de que o espírito Militar e o espírito de Família não estavam dissociados! Era a casa enorme onde cabia toda a grande família da Força Aérea, porque também os outros, que à BA3 iam adir para efeitos da frequência de qualquer curso ou em missão de serviço, eram integrados nessa grande família!
Não estava arreigada no espírito de ninguém a convicção de que "A FORÇA AÉREA EXISTE PORQUE EXISTEM PILOTOS E AVIÕES!", como por vezes se ouvia dizer em Monte Real. Em Tancos também existiam aviões e Pilotos, mas existiam igualmente os Mecânicos de Material Aéreo e Terrestre, Electricistas, de Rádio, de Armamento, havia o pessoal de Controle, de Meteorologia ou Comunicações, para não falar nos Abastecimentos, nos Amanuenses, na Polícia Aérea, nos Bombeiros, nos Condutores, nos Clarins... e até nos Cozinheiro, bastante importantes para cozer as batatas que eram servidas à mesa de todos os outros, como importantes eram aqueles "fulanos" que limpavam a pista, a iluminavam, a conservavam... sendo que eram todas estas pessoas que permitiam que os aviões fossem para o ar, no cumprimento das missões que lhes eram cometidas, cientes de que todos tinham dado o seu contributo para o cumprimento da missão!
Era assim a Base Aérea nº. 3, que honrava por completo a sua divisa... e a Força Aérea de que se orgulhava ser uma parte importante.
Foram muitos os anos que deram àqueles que fizeram a Força Aérea Portuguesa motivos de sobra para se reverem na história que ajudaram a escrever. Muitos daqueles que um dia passaram os portões da Base, já hà muito foram para junto do Criador, pois é essa a natureza humana, mas nós, que ainda esperamos a nossa hora, não esquecemos aqueles que nos antecederam nos 88 anos de vida da nossa Base Aérea 3.
Esta Base é eterna... enquanto estiver guardada na nossa memória!