sábado, 21 de fevereiro de 2009

CARNAVAL NA "TROPA"...


Um dia, porque requeri que me fosse concedido um período da licença a que tinha direito, mercê das Leis e Regulamentos Militares a que estava sujeito, fui chamado ao gabinete do Comandante da Unidade para justificar porque queria 20 dias de licença num ano e 15 dias do ano seguinte, porque deveria saber, na qualidade de Militar do Quadro Permanente, que a Base não permitia o gozo de licenças a partir do dia 15 de Dezembro, por causa das escalas de serviço.
No mês de Janeiro poderia requerer os 30 dias e submeter o passaporte a despacho, mas antes... não!
Tentei argumentar com o Senhor Comandante que tinha necessidade desse período de licença... além de que tinha ainda a licença referente à minha Comissão de Serviço no Ultramar para gozar... e esta não podia ser protelada regulamentarmente, pelo que iria de licença de qualquer modo.
Perguntou então o Comandante: - "Senhor Sargento... tem assim tanta necessidade de gozar a licença, porquê, se lhe posso perguntar isso?"
- "Saiba o Senhor Comandante que tenho trabalhos para executar, que me foram solicitados com uma certa urgência... e tenho problemas de índole monetária para resolver, porque ando a construír casa e todo o dinheiro faz falta!"
- "E será que me pode dizer se pediu autorização para trabalhar particularmente, fora das horas de serviço?"
- "Senhor Comandante: Estou autorizado já há muito tempo, pois o que ganho por andar mascarado de Militar durante trezentos e tal dias por ano é bastante menos que os proventos auferidos pelos tipos que andam por aí vestidos de Pai Natal...e a estes não fazem as exigências que se fazem a um Militar, razão porque jamais deixei de trabalhar desde que vim para o Serviço Militar, porque tenho família..."
Não me deixou prosseguir o nosso Comandante. Assinou o passaporte e apenas perguntou: - "Senhor Elias: Então você põe um Militar como termo de comparação de um tipo vestido de Pai Natal? Francamente!"
-" Não, senhor Comandante! Apenas estou a informar V.Exª. que os tipos que se mascaram, como os palhaços, os pais natais, os actores e outros, ganham para se mascararem, ao passo que nós, Militares, andamos mascarados sem auferir um tostão mais que o nosso ordenado, que até é bastante curtinho!"
Poderão perguntar os leitores deste blog o que tem a vêr esta conversa com o Carnaval, mas a resposta pode ser a gosto de quem me lê! É que me lembrei que nunca ninguém se lembrou de ordenar que, pelo menos durante os festejos carnavalescos, os Militares se mascarassem de civis, para que se não visse a farda como uma adereço de Entrudo!
Ao fim e ao cabo, o Clube de Oficiais da Base Aérea nº. 3 costumava celebrar o Carnaval... mas apenas a oficialidade deixava de ser Militar neste período! Os outros...

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

HISTÓRIAS DA HISTÓRIA ...

Cada dia que passa, há uma memória que se vai perdendo, uma história que se não contou, um pouco de nós que se dilui no tempo, porque há tanto para contar, tanto para se dizer... mas não é crível que os neurónios de cada um de nós esteja sempre a trabalhar com aquele acerto que seria possível se aínda houvesse uma "Secção de Compensação de bússulas" como a que executava esse serviço na "Esquadrilha de Electrónicos" da extinta Base Aérea nº. 3.
Não se pense que estou a falar por falar, porque na Base nada acontecia por acaso.
Desde as "magníficas" fotografias "assinadas" pelo saber do Brogueira ou a vontade de aprender do Tó, aos "acepipes"confeccionados pelo Ti Amadeu, de onde ressaltava a magnificiente iguaria da "Feijoada à Portuguesa", de que era perito renomado, como o era o Sr. Fernando nas "Salchichas Belgas" à moda da Messe de Sargentos.
Já alguém esqueceu dos trabalhos de casquinharia, carpintaria, pintura, polimento, torneiro, serralharia, estofador ou correeiro com que as Oficinas Gerais mostravam ao mundo toda a sua aptidão e competência?
A Base Aérea nº. 3 era um mundo inigualável no que concerne à oferta de serviços imprecindíveis para bem servir a Força Aérea... não faltando sequer o requinte de uma Cantina... que poderá não ser o "Continente" ou o "Pão de Açucar", mas encontra-se tudo o que se torne necessário ao dia-a-dia da Messe e do Bairro de Oficiais.
Por vezes julgo estar ainda a "vêr" o sorriso do Senhor Teófilo, Cozinheiro que durante muitos anos exerceu o mister de Empregado-de-mesa, e a "ouvir" a sua sacramental e surreal resposta, quando alguém lhe pedia para "arranjar" uma repetiçãozinha daquele saboroso prato-do-dia que tinha sido servido no Refeitório do Rancho Geral: - " E mais nada... é mesmo isso, Nosso Cabo: está a saír uma repetição! Pode ser só de arroz e molho!". Ou a lenga-lenga de um célebre Sargento do Rancho: - "Não é permitido levar o pão para a camarata! Quem não come agora é porque não tem fome...e se não tem fome de sopa também não tem de pão! Perceberam ou precisam de explicação do Oficial de Dia?" Claro que isto era só fanfarronice e maus fígados do Sargento, mas os Recrutas tinham medo das consequências, porque pensavam que este guardião dos bens do Rancho Geral seria pessoa capaz de ser tomada a sério pelos Comandos da Unidade, a todos os níveis, o que não correspondia à verdade, pois todos tinham a certeza de que ninguém teria "vontade" de contrariar tal graduado... para mais por causa de um simples pão.
Alguém disse, um dia, que a Base Aérea nº. 3 vinha sofrendo as dores do crescimento... e eu acredito que muito daquilo que de negativo nela acontecia era apenas e tão só por causa dessas famigeradas dores, porque grande nau... grande tormenta! E a Base Aérea nº. 3 havia crescido de uma forma inimaginável... até que a cobiça dos outros entrou em acção!